O mercado brasileiro de bicicletas viveu um fim de semana decisivo entre 20 e 23 de agosto, quando a Shimano Fest 2026 tomou o Memorial da América Latina, em São Paulo, reunindo mais de 120 expositores e cerca de 350 marcas em um dos maiores encontros do setor no país. O evento, que já está na 16ª edição, projetou movimentar R$ 76 milhões em negócios e recebeu mais de 50 mil visitantes ao longo dos quatro dias — mas o dado que chamou mais atenção de quem acompanha a indústria não foi o público, e sim o que ele revelou sobre a transformação silenciosa da bicicleta brasileira: o avanço acelerado das bikes elétricas em meio a uma retração histórica da produção convencional.

Um festival dividido entre profissionais e público geral
Os dois primeiros dias da Shimano Fest, 20 e 21 de agosto, foram reservados para profissionais do setor e imprensa especializada, com rodadas de negócios e os chamados Training Days — palestras e capacitações voltadas para mecânica de bicicletas, gestão de lojas, marketing e mídias digitais. Já 22 e 23 de agosto abriram as portas para o público geral, com entrada gratuita mediante doação sugerida de 1 kg de alimento não perecível.
A grande novidade de 2026 ficou por conta do Giro Ride Like a Pro Brasil – Edição São Paulo, um passeio ciclístico de 65 quilômetros em ruas fechadas para ciclistas amadores, que reforçou o caráter híbrido do evento: ao mesmo tempo vitrine comercial e celebração da cultura da pedalada. Marcas nacionais e internacionais aproveitaram a exposição para lançar produtos, com destaque para linhas de e-bikes urbanas e de performance, categoria que já domina boa parte do espaço físico das feiras do setor.
Produção de bicicletas cai 44% em três anos — mas as elétricas disparam
O pano de fundo da Shimano Fest 2026 é um mercado em plena reestruturação. Entre 2022 e 2025, a produção nacional de bicicletas caiu 44%, saindo de 599.044 unidades para 335.560, segundo dados do setor que circularam durante o evento. Só em 2025, a retração em relação a 2024 foi de 4,5%. É um cenário de contração real, puxado por fatores como o fim do boom de pedalada da pandemia, aumento de custo de matéria-prima e concorrência de outros meios de transporte individual.
Dentro desse quadro de queda geral, porém, um segmento se comporta de forma completamente oposta: as bicicletas elétricas. Em 2022, as e-bikes representavam apenas 1,8% de toda a produção nacional de bicicletas. Em 2025, esse percentual saltou para 14%, com cerca de 46,9 mil unidades fabricadas — uma alta de aproximadamente 145% frente ao ano anterior. Ou seja, enquanto a bicicleta convencional perde espaço na linha de produção, a elétrica praticamente triplicou sua fatia de mercado em três anos, e quase dobrou em volume absoluto de um ano para o outro.
Esse movimento não é exclusividade da fábrica: ele se replica nas ruas. Levantamentos que embasaram um especial exibido em agosto na TV Brasil mostraram que o número de bicicletas elétricas, autopropelidos e ciclomotores em circulação no país saltou de 7,6 mil unidades em 2016 para 284 mil em 2024 — um crescimento de 37 vezes em oito anos. A reportagem “Caminhos da Reportagem” dedicou um episódio inteiro ao fenômeno, evidenciando como o tema deixou de ser nicho e passou a preocupar também gestores de mobilidade urbana.
Quando a “bike elétrica” vira motinha: o alerta da Shimano Fest
Um dos debates mais quentes da edição 2026 do festival, segundo cobertura especializada, foi justamente a linha cada vez mais tênue entre bicicleta elétrica assistida e o que na prática já funciona como uma motocicleta elétrica de baixa potência — as chamadas “motinhas elétricas”. Reportagem publicada pelo Brasil de Fato em 26 de agosto descreveu como esses veículos avançam tanto dentro do próprio festival quanto nas ruas das grandes cidades, ocupando ciclovias e gerando atrito com ciclistas tradicionais.
A diferença técnica é regulatória e nem sempre visível a olho nu: uma bicicleta elétrica homologada como tal, segundo a Resolução Contran 996/2023, que passou a valer integralmente em 2026, precisa ter o motor limitado a determinada potência e a assistência ao pedal deve cessar acima de uma velocidade específica — ela não pode ser acionada sem que o ciclista pedale. Já os modelos que funcionam por acelerador, sem exigência de pedalada, e ultrapassam os limites de potência da resolução, tecnicamente deixam de ser bicicletas e passam a exigir emplacamento, habilitação e equipamentos de segurança de ciclomotor. Na prática, grande parte do que circula nas ciclovias das capitais brasileiras hoje ignora essa fronteira, o que tem motivado fiscalização mais rígida em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
O consumidor no meio da equação: preço, autonomia e regras
Para quem está pensando em migrar da bike convencional para uma elétrica — seja para o trajeto urbano diário, seja para o lazer de fim de semana — a orientação que ganhou força durante a Shimano Fest 2026 é simples: prestar atenção a três variáveis antes de fechar a compra. A primeira é o preço, que no Brasil varia enormemente: de modelos de entrada em torno de R$ 4 mil a e-bikes premium que ultrapassam R$ 13 mil, dependendo da bateria, do motor e da marca. A segunda é a autonomia real da bateria, que costuma ser divulgada em condições ideais de laboratório e cai bastante em terrenos com aclives ou quando o ciclista usa o nível máximo de assistência o tempo todo. A terceira é justamente a conformidade regulatória: verificar se o modelo é homologado como bicicleta elétrica (e não como ciclomotor disfarçado), o que evita problemas com multas e apreensão.
Marcas nacionais têm avançado nesse recorte de mercado consciente do preço. Um exemplo recente é a Oggi, que lançou em agosto sua e-bike 8.1 com motor de 110 Nm de torque por R$ 12.990 — um valor competitivo para a faixa de e-bikes com motor de média potência, pensada tanto para uso urbano pesado quanto para trilhas leves. O lançamento reforça uma tendência: fabricantes brasileiros estão deixando de importar linhas completas e passando a montar localmente, o que ajuda a baixar o preço final e coloca o país como um “player” cada vez mais relevante no mercado global de e-bikes, com marcas nacionais ganhando espaço frente às gigantes asiáticas.

Infraestrutura ainda é o gargalo
De nada adianta o avanço da frota elétrica sem ciclovias e ciclofaixas que suportem esse volume — e é aí que mora um dos maiores desafios para 2026 e além. Iniciativas como o programa Vai de Bike, do Distrito Federal, que caminha para atingir a marca de 1.000 km de ciclovias na capital federal, mostram que há investimento público acontecendo, mas o ritmo de expansão da malha cicloviária nas grandes cidades brasileiras segue historicamente mais lento do que o crescimento da frota de bicicletas elétricas e autopropelidos. O resultado é a convivência, nem sempre harmoniosa, entre ciclistas convencionais, usuários de e-bike, autopropelidos e pedestres em espaços que muitas vezes não foram dimensionados para tanta diversidade de veículos.
Há também uma pauta legislativa em tramitação que pode facilitar a vida de quem pedala: um projeto de lei que garante o direito de levar a bicicleta dentro do ônibus, ampliando a integração entre modais de transporte — hoje um dos principais entraves para quem depende da bike em trechos mais longos ou em dias de chuva.
O que esperar dos próximos meses
Com a Shimano Fest 2026 encerrada, o mercado entra agora em um período tradicionalmente mais aquecido para lançamentos, aproveitando o fim do inverno e a proximidade da primavera, quando a procura por bicicletas — elétricas ou não — costuma crescer no Brasil. A expectativa de analistas do setor é que a fatia das e-bikes na produção nacional continue subindo em 2027, especialmente se o preço médio dos componentes eletrônicos (baterias e controladores) continuar em trajetória de queda, como vem acontecendo globalmente.
Para o consumidor final, a mensagem prática que fica do maior evento cicloviário do país em 2026 é dupla: por um lado, nunca houve tanta opção de bicicleta elétrica boa e relativamente acessível no mercado brasileiro; por outro, a pressa por eletrificar a frota nacional está testando os limites da regulamentação e da infraestrutura das cidades — um equilíbrio que vai definir se a década das e-bikes no Brasil será lembrada como um avanço de mobilidade sustentável ou como uma bagunça regulatória nas ciclovias.
Fontes: Bike Magazine, Brasil de Fato, Portal Acessa, Distrito Federal (programa Vai de Bike), assessoria de imprensa Shimano Fest 2026 e Oggi Bikes. Apuração realizada em 30/08/2026.